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Sentada em cima de um tênis All-Star sujo cinza, as calças largas devido à esqualidez, os cabelos untados de suor e possivelmente caspas caindo-lhe nervosamente sobre os ombros encolhidos; e, finalmente, a mão magra de ossos protuberantes sobre a concavidade que provinha de seu ventre: sua criança, dentro da barriga, uma vida querendo nascer.

Debaixo de uma ponte qualquer, em uma capital qualquer dessas onde todo dia milhares se perdem. Repletas de sombras, fantasmas, fome.

Abandonada.

Ainda tinha um celular, sem crédito, poderia ligar a cobrar. Mas para quê? Todos a tinham abandonado. Era assim que as pessoas faziam, elas abandonavam quem mais precisava de cuidados. Havia três meses ela carregava aquilo, aquela criança que chamava de aquilo, consigo. Não sabia se sentia amor, se sentia raiva, se sentia ambos ou nada. Não sabia mais para onde ir, mal sabia de onde vinha.
aquela vida na barriga estava desaparecido. O celular, quando ligava para ele, falava que estava fora da área de cobertura ou temporariamente desligado. E aquela garota suja e triste ligara centenas de vezes para ele. Pior que ainda o amava. Talvez agora finalmente tivesse desistido. Ela, ali, apenas com seu filho. Não o sentia como filho, era mais um fardo. Era aquilo. Por mais cruel que possa parecer.

Ela tinha fugido de casa. Mas, antes, seu pai já dissera que teria de ir embora, já que tinha “engravidado daquele calhorda irresponsável drogado”. É verdade, drogado, como ela, embora ela tivesse ficado só no baseado e deixado o pó. Não tinha mais verba para nada, muito menos para uma erva que a acalmasse. Há dias sem fumar, sem beber, sem quase comer. Pedira umas coisas na rua.

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